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O mito da felicidade na sociedade de consumo: não basta ser feliz, tem que parecer 




Marcus Pinto Aguiar, Mediador Judicial de Conflitos, Advogado, Professor do Mestrado em Direito do UNINTA e da Faculdade 05 de Julho (F5), e membro-fundador do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais 

 

No último dia 20 de março, comemorou-se novamente o Dia Internacional da Felicidade [1], estabelecido por meio da Resolução A/RES/66/281 da Assembleia-Geral da ONU, proclamada em 12 de julho de 2012, com a finalidade de ampliar as reflexões sobre a felicidade e o bem-estar enquanto valores próprios da natureza humana, promover indicadores de desenvolvimento humano, social e sustentável (para além do PIB) e incentivar a participação dos Estados na sua concretização. 

 

Um ano antes, em 2011, a Assembleia Geral da ONU, por meio da Resolução A/RES/65/309, já estabelecia as bases para a compreensão da felicidade e do bem-estar como um objetivo fundamental do desenvolvimento, assim como um direito humano transversal ou um meta-direito, enquanto princípio integrador e interpretativo da aplicação de direitos, além de conclamar os Estados-membros a tomá-los como guia de políticas públicas.  

 

Nesse contexto, em 2 de abril de 2012, é apresentado o primeiro Relatório Mundial da Felicidade (World Happiness Report) a vários chefes de Estado, líderes das Nações Unidas e renomados cientistas sociais, elaborado pelo Instituto Gallup, pelo Centro de Pesquisa sobre Bem-Estar da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas [2]. Atualmente, o principal estudo global sobre felicidade e bem-estar. 

 

O relatório se baseia numa amostragem de habitantes de mais de 140 países, que se manifestam acerca de seis indicadores para elaboração do ranking anual de felicidade, a saber: PIB (Produto Interno Bruto) per capita, apoio social, expectativa de vida saudável, senso de liberdade, generosidade e percepções de corrupção. 

 

O relatório deste ano de 2026 apresenta a Finlândia em primeiro lugar, com um recorde de nove anos seguidos na liderança, além de incluir um país latino-americano, a Costa Rica, em 4º lugar; já o Brasil, saiu do 34º (2025) para o 32º lugar. 

 

Entre os destaques apontados pelos pesquisados para avaliação da própria vida e das condições externas que favorecem o bem-estar, a partir dos indicadores que compõem a metodologia da pesquisa, está a liberdade de escolha de suas opções de vida. Para alguns, entretanto, a segurança de vida proporcionada pelo Estado, a proximidade com a natureza, a estabilidade política, a rede de apoio familiar e da comunidade são indicadores que variam de acordo com as condições de cada país, concluindo-se que os fatores culturais pesam quando se trata de analisar a própria vida inserida no contexto social vivenciado. 

 

No Brasil, apesar da elevada percepção de corrupção, da instabilidade financeira e da baixa confiança nas instituições, pesam positivamente as condições de vida social, no que se refere ao sentimento de acolhimento e de poder contar com as pessoas, ou seja, importa muito o contexto comunitário. 

 

Para o pesquisador Arto Salonen, professor na University of Eastern Finland e autor de estudos sobre bem-estar na sociedade finlandesa, “um dos fatores que pode influenciar na percepção de felicidade dos indivíduos é separar os desejos das necessidades, especialmente quando o assunto é finanças” [3], além de um estilo de vida mais saudável e sustentável.  

 

E é neste ponto, entre desejos e necessidades, que a felicidade abandona seu fundamento de valor autêntico para a vida humana, de expressão espontânea de desejo interior, associando a realização pessoal à aquisição de signos e mercadorias impostos pela sociedade de consumo, como defende Jean Baudrillard [4]

 

A crítica de Baudrillard é pertinente, pois diante de tantos esforços para se mensurar a felicidade, pode-se correr o risco de deslocar os problemas estruturais para a responsabilidade individual, por meio da força ideológica de que todos podem ser felizes, desde que tenham acesso ao consumo. 

 

Nesse cenário, o mito da felicidade em uma sociedade que hipervaloriza o consumo pode ser sufocado pelo deslocamento da questão ao nível de satisfação de desejos que se confundem com necessidades ao ponto de não mais se distinguir uns dos outros, ou na fala de Baudrillard, a modernidade induz que “é preciso que a Felicidade seja mensurável” por objetos e signos, enquanto tendência das sociedades democráticas, fundadas nos princípios individualistas. 

 

Assim, em uma cultura de desempenho e hiperconectada, o Relatório aponta para preocupações especialmente com os mais jovens, que muitas vezes entendem a felicidade sobre métricas de engajamento, reforçando a ideia de que ela é publicamente mensurável, gerando culpa, ansiedade e depressão, afetando significativamente a condição mental das pessoas. 

 

Mesmo quando organismos internacionais (como na Resolução 65/309) afirmam a felicidade como objetivo fundamental, a crítica de Baudrillard lembra que não basta declarar a felicidade como meta; é preciso enfrentar os mecanismos que a reduzem a consumo e que mascaram desigualdades sob o discurso de bem-estar. 

 

Sua análise ajuda a evitar que a linguagem do direito à felicidade se converta em ideologia legitimadora caso não venha acompanhada de políticas estruturais de cultura, meio ambiente, trabalho e redistribuição. 

 

Notas:      [1] Para uma leitura inicial, propomos nossa reflexão intitulada “Direito à Felicidade enquanto Direito Cultural Multidimensional”, publicada em maio de 2025, no blog do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais (IBDCult), e disponível em <https://www.ibdcult.org/post/direito-%C3%A0-felicidade-enquanto-direito-cultural-multidimensional>. 

 

[2] HELLIWELL, J. F.; LAYARD, R.; SACHS, J. D., DE NEVE, J.-E., AKNIN, L. B.; WANG, S. (orgs). World Happiness Report 2026. University of Oxford: Wellbeing Research Centre, 2026. Disponível em: <https://www.worldhappiness.report/ed/2026/>. Acesso em 22.mar.2026 

 

 

[3] BBC. BBC News Brasil. Os países mais felizes do mundo em 2026 - e o que eles estão fazendo de certo para isso. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/ce358vy1el1o>. Acesso em 22.mar.2026. 

 

[4] BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Lisboa, Portugal: Edições 70, 2010. 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

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