Medo da loucura

Atualizado: Ago 5

No dia das mães deste ano da pandemia, estava à mesa do almoço com a minha mulher e o nosso casal de filhos. A propósito da data, vieram à tona assuntos leves, como as coisas imorredouras, tipo o amor das e para com as genitoras, que, aliás, está sendo posto à prova, ao menos em sua dimensão mítica, por causa da convivência contínua que a calamidade sanitária está obrigando a existir entre as mulheres e seus rebentos, ao ponto de, como muitas dizem na internet, estarem sendo levadas à loucura.


Loucura. Essa palavra funcionou como uma senha quase hipnótica que nos chamou à realidade destes duros dias que, mesmo antes da virose mundial, já havia ligado o alerta da proliferação das doenças mentais, sobretudo a depressão, que leva tantas pessoas a desistirem da vida, seja em termos simbólicos ou dramaticamente abdicando do sagrado dom.


Para tentar novamente aprumar a conversa de modo a deixá-la compatível com a leveza da efeméride, evoquei o “Elogio da Loucura”, obra na qual o culto e hilário Erasmo de Roterdã, numa das mais hábeis argumentações jamais produzidas por uma pena satírica, defende que, pelos parâmetros greco-romanos, a loucura deveria ser considerada uma deusa, tendo em mente ser possuidora das características comuns aos que têm assento no Olimpo: é eterna, faz o que quer e ninguém tem controle sobre ela.


Ao descrever a obra lembrei que Erasmo faz uma associação quase visceral entre a loucura e a felicidade, percebendo-a nos atos antissociais das crianças inocentes, nos gestos ridículos dos românticos, no descompromisso para com as regras de civilidade, na ausência do desejo de inserção social das pessoas simples, no descompromisso dos artistas para com as regras de racionalidade...


Fui interrompido por meu filho, que é médico recém-formado, mas que em um dos seus estágios conviveu com pessoas internadas em instituição psiquiátrica: “- isso não é loucura; a loucura, longe de qualquer felicidade, é profundo sofrimento”. Que choque ser chamado à atenção para a oceânica falácia construída pelo holandês, em cujo maravilhoso ensaio, passei a perceber, refere-se a uma ideia mais aproximada de contracultura do que da insanidade doentia.


O almoço, porém, ainda iria se alongar, pois a minha filha, que é arquiteta e durante o confinamento transpôs todos os seus dotes de noção de espaço e de estética para a culinária, queria nos surpreender na sobremesa, não sem antes lembrar que além das loucuras individuais, apareceram com todas as forças as coletivas, sobremodo as da política, que nos obrigam a combater em dobro (ou até mais) contra os infortúnios que nos cercam.


O fato é que com essa nova prática de desaceleração da vida, tive tempo suficiente de recorrer a mais uma das minhas muletas intelectuais, para não ficar tão por baixo. Usei o velho recurso de jogar a culpa na equivocidade da palavra loucura e, como qualquer um no meu lugar, evoquei “O Alienista”, de Machado de Assis, para dizer que até a ciência, neste caso representada por Simão Bacamarte, muda seus parâmetros.


Mas faltava a cereja do bolo (não a da sobremesa, mas a da argumentação): Hamlet, a peça de todas as insanidades, uma verdadeira profecia, escrita por volta de 1600, para o que atualmente vivemos, mesmo com subterfúgios plagiários, pois afinal de contas, ter dúvidas sobre “ser ou não ser” não é a mesma coisa do que viver em “tempos líquidos”?


Na peça, Ofélia suicida-se por depressão, os coveiros trabalham a todo vapor, os fantasmas aparecem, os artistas montam e desmontam farsas palacianas, o veneno é recomendado de forma indistinta e o próprio Hamlet, de tão confuso, perde a noção sobre sua loucura, não sabendo se a possui ou apenas finge que a tem, o que leva seu tio, Cláudio, a fazer uma recomendação que reverbera, desde então, em toda a ciência política: “cuidado com os loucos que têm poder!”


Não tivemos essa cautela, o que se constituiu num erro tão grande que gerou uma inversão que nem mesmo Shakespeare conseguiu imaginar: os herdeiros de Yorick, o Bobo da Corte, cuja caveira é a mais famosa da dramaturgia, deixaram de contar piadas e fazer arremedos; assumiram eles próprios o poder e, sem habilidade alguma, renegando as origens farsantes, optaram pelo ódio e pelo terror.


“- Deixe de exagero!”, protestou a homenageada do dia, a minha mulher, colocando um freio nessas metáforas que, levadas ao extremo, também se tornam alienantes por nos fazerem conviver mais com caricaturas que com a realidade.

A sobremesa finalmente foi partilhada e pudemos adocicar um pouco mais um de nossos dias de quarentena.


FOTO: Estátua sem identificação de autoria, exposta no Castelo do Ovo, em Nápoles, Itália. Foto de Humberto Cunha Filho



Fortaleza, 30 de maio de 2020.


Humberto Cunha Filho

Doutor em Direito e Professor de Direitos Culturais na Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Autor, dentre outros, do livro “Teoria dos Direitos Culturais: fundamentos e finalidades”.

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