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Décadas de transformação e luta antirracista na comunidade quilombola Serra do Evaristo


Créditos : Cibele Alexandre Uchoa (2023)


Quem visita a Comunidade Quilombola Serra do Evaristo hoje pode facilmente perceber a alta noção identitária e a apropriação tanto do território como da própria história pelos indivíduos. O quilombo da Serra do Evaristo, cuja certidão de autodefinição foi emitida pela Fundação Palmares em 2010, está localizado no maciço de Baturité, a uma média de 100 quilômetros de Fortaleza, capital do Ceará, e conta com um ecomuseu que abriga achados arqueológicos realizados na região.


Em cima de um cemitério indígena, há pelo menos duas décadas membros da comunidade encontram artefatos arqueológicos, incluindo vasilhas de diversos tamanhos, algumas contendo estruturas ósseas humanas. Inicialmente ocorridos de forma acidental em decorrência de intervenções para construções ou por terem ficado visíveis pela erosão do solo, os achados despertaram interesse científico, resultando no convênio do IPHAN com a empresa Arqueosocio.


Dentre os achados estão fragmentos cerâmicos, fusos, fragmentos de cachimbo, artefatos lascados, lâminas polidas, picotadas e lascadas, vasilhas, estruturas ósseas humanas, entre outros, os quais indicam o desenvolvimento de atividades fabris – como a fiação de algodão e a fabricação de cerâmicas – e agrícolas. O sítio arqueológico está datado entre 1280 e 1390 d.C.


Completando 10 anos de existência neste mês de setembro, o Museu Comunitário Serra do Evaristo é um dos resultados do convênio e abriga parte dos achados das escavações arqueológicas realizadas no território do quilombo, cujos impactos continuam presentes. Antonio Freitas, professor da Escola Osório Julião, afirma que “as pessoas, de um modo geral, da comunidade e de fora, passaram a ficar mais curiosas em relação a esses achados, a esses artefatos, e várias pessoas, principalmente estudantes da UNILAB [1] e de outras instituições de ensino, também passaram a visitar a comunidade para fazer pesquisas, entrevistas com os professores, com os alunos e também com as pessoas mais velhas da comunidade”, o que destaca continuar acontecendo.


Segundo o Professor Antonio, a importância da escola na valorização da identidade cultural está no fato de que a cultura, com suas formas de criar, fazer e viver, antes transmitida de geração a geração somente por meio da oralidade, hoje, além de presente na experiência de ensino, também vem sendo registrada de forma escrita e por meio de fotografias e vídeos, o que fortalece a noção identitária e a luta antirracista.


Cássia Fernandes, também professora da escola comunitária, reitera a importância do que é feito “no chão de sala de aula” e destaca a relevância da mobilização da comunidade no cuidado com os achados arqueológicos e com o ecomuseu. Segundo ela, a Associação Comunitária é outro fator de impacto nas noções de pertencimento, e o apoio e a valorização cultural são impulsionados também por parcerias, como as firmadas com a Secretaria da Educação de Baturité e com o Sebrae.


O quilombo da Serra do Evaristo também guarda outro tesouro, a Dança de São Gonçalo, manifestação religiosa de agradecimento às graças alcançadas, cuja tradição é preservada pela Mestra da Cultura Socorro Fernandes, a qual destaca o interesse das pessoas pela “cultura da dança” e pelos achados arqueológicos , com impacto direto na comunidade: “a comunidade ficou mais bem visitada, os nossos moradores começaram a se reconhecer mesmo e a valorizar a história da comunidade, a cultura, a memória dos nossos ancestrais, as tradições”.


Apesar de a dança ser uma manifestação religiosa e, por isso, uma prática mais íntima da comunidade, como destaca Antonio, sua realização é aberta à contemplação de visitantes e, segundo a Professora Cássia – que também é filha da Mestra Socorro –, com o passar do tempo a dança despertou mais interesse e a percepção de manifestação cultural ficou mais clara, passando a acontecer mostras da dança em contextos específicos.


A comunidade mantém uma unidade de direcionamento, o que os torna mais fortes. Na escola existem frases e cartazes que falam de empoderamento e da valorização da cultura quilombola, inclusive da importância de os saberes estarem ali presentes. Nas cerimônias, a luta antirracista fica evidente nas músicas escolhidas e nos cantos entoados, geralmente puxados pela Mestra Socorro, e nos discursos. A apropriação da identidade, as noções de pertencimento e a luta antirracista são constantes no quilombo da Serra do Evaristo, e esses elementos se mostram não como uma faísca, mas como um braseiro aceso no seio da comunidade.


Cibele Alexandre Uchoa, Escritora. Pesquisadora. Mestre e Doutoranda em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza. Sócia-fundadora do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais – IBDCult


Nota:


[1] Universidade de Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira


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