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A linha de corte da inteligência artificial 

Atualizado: há 15 horas


 

Imagem sintética criada com Nano Banana (Gemini).
Imagem sintética criada com Nano Banana (Gemini).

 


Cibele Alexandre Uchoa, Doutoranda em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza – UNIFOR, com financiamento da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico – FUNCAP, Sócia-fundadora do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais – IBDCult. CEO Hiperlink P&D 

 

Enquanto lojas como a Havan produzem almofadas de Natal com imagens criadas com inteligência artificial e as redes sociais fazem viralizar músicas sintéticas que auxiliam na manutenção do tempo de tela – ambas as situações com elementos direcionados a um público específico; grandes marcas contratam designers para produzir coleções originais, retiram do ar campanhas criadas com IA e acertam, pela lógica de mercado, ao investir no fator humano, agregador de valor – principalmente diante do popular, cujo foco se limita à função e ao preço.  

Essa possibilidade de produção estética em massa com direcionamento específico de classe, na contramão da função social da arte na era de sua reprodutibilidade técnica como informado por Walter Benjamin [1], tem a intenção clara do lucro, cuja margem aumenta diante de fatores como rapidez, praticidade e baixo custo com o uso de inteligência artificial.  

 

As novas regras da indústria “cultural” – com Adorno e Horkheimer [2] ainda atuais – estabelecem a linha de corte social da inteligência artificial, seja no uso sem responsabilidade com o objetivo de baratear custos com designers, fotógrafos, diretores de arte etc., seja na implosão da própria dinâmica dessa indústria, como no caso da música Sina de Ofélia, versão sintética em português da música The Fate of Ophelia, de autoria de uma das maiores autoridades em produções direcionadas ao consumo, Taylor Swift.  

 

Se o artista de massa sacralizado já esvaziava o sentido do que é arte ao assumir o papel de produtor-protagonista com conteúdos pasteurizados, os conteúdos produzidos sinteticamente que o faz balançar no pedestal nada mais são que uma retroalimentação dessa lógica de produção. 

 

A questão não para aí. O próprio uso das ferramentas de inteligência artificial também entra na conta da diferenciação de classe. Enquanto autodenominados especialistas indicam que as ferramentas de inteligência artificial generativa ficaram na primeira onda, e que agora é a vez dos agentes autônomos personalizados, exigindo nível técnico especializado para o desenvolvimento, as plataformas disponibilizam planos gratuitos ou de baixo custo para o uso, com o incentivo adicional de redes sociais específicas para o compartilhamento de material sintético. Enquanto surgem trends como a de compartilhar “seu namorado(a) ideal” criado por inteligência artificial e produtos que prometem conexão em tempo integral, como os óculos de realidade aumentada integrados com IA, outros tipos de conteúdo vão na direção contrária, como os que indicam o aumento pela busca de equipamentos tecnológicos analógicos e que o novo sinônimo de luxo é uma vida desconectada. 

 

Para compor o quadro, a personalização das redes, anunciada pelo Google há quase duas décadas, e adensada pelos algoritmos em redes sociais, é fichinha perto da engrenagem a serviço da infocracia – conceito elaborado por Byung-Chul Han [3] para descrever o atual regime, que passou da biopolítica, com o controle dos corpos, de Foucault [4], ao domínio neural – composta pelas ferramentas de inteligência artificial, as quais incentivam o uso para mais e mais atividades (os e-mails de comunicação incluem indicações para a criação de treinos de musculação, elaboração de dietas e escrita rápida, por exemplo), com a tendência de centralizar a coleta e o uso de dados dos usuários. 

 

Se, na indústria cultural, as escolhas não são verdadeiramente nossas, como as afirmações de Adorno e Horkheimer, e, diante do regime de informação, as escolhas ocorrem no nível pré-reflexivo, como apresentado por Byung-Chul Han, quem verdadeiramente tem poder de escolha? E quem comanda as escolhas e aqueles que pensam escolher?  

 

O ponto central dessa questão, no entanto, talvez não seja a resposta a essas questões, mesmo diante de estratificação de classe que, em certa medida, determine quem produz e lucra com inteligência artificial e quem não tem poder de escolha, mas sim os limites de uso impostos tanto pelo desenvolvimento tecnológico – as previsões iniciais de consolidação da inteligência artificial geral miravam nos anos de 2026 e 2027, mas já foram adiadas para 2029 e 2030 – quanto pela aceitação do público, seja pela busca por uma vida menos conectada e mais analógica, seja em um nível anterior ao da consciência – atire a primeira pedra quem não sentiu uma estranha sensação, ruim e inexplicável, diante de conteúdos sintéticos. 

 

 

Notas:


[1] BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Tradução: Gabriel Vallado da Silva. Florianópolis: L&PM, 2013. E-book

 

[2] ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução: Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. 

 

[3] HAN, Byung-Chul. Infocracia: digitalização e a crise da democracia. Tradução: Gabriel S. Philipson. Petrópolis: Vozes, 2022. 

 

[4] FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978-1979). Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008. 

 

 

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