O Agente Secreto e a memória fragmentada
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Cibele Alexandre Uchoa, Doutoranda em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza – UNIFOR, com financiamento da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico – FUNCAP. Sócia-fundadora do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais – IBDCult. CEO Hiperlink P&D
Este artigo contém spoiler! Armando morre. Armando, codinome Marcelo, personagem principal de Wagner Moura em “O Agente Secreto”, filme de Kleber Mendonça Filho indicado ao Oscar, é morto a tiros aos 43 anos, no Recife, informação dada ao telespectador com a cena de um jornal no qual se vê a imagem do protagonista assassinado.
A cena dramatizada da morte não existe, os detalhes são poucos – como o tratamento jornalístico do caso enquanto queima de arquivo – e a conversa da pesquisadora com o filho de Armando concretiza o silêncio desconfortável de não saber. Armando morre. E nós, que assistimos ao filme, nem sabemos exatamente como. Era assim que acontecia, era assim que as pessoas sumiam, era assim que a vida seguia sem explicação clara.
A genialidade do roteiro de Kleber Mendonça Filho está nessa desconexão entre o acontecido e o informado, no desconforto do não saber, na capacidade de traduzir ao espectador, em efeito psicológico, a aura informacional do contexto político do Brasil de 1977 e da lacuna memorial que veio depois.
“O Agente Secreto” é construído a partir de ausências: os interesses pessoais não desvelados, os conflitos pouco claros, a companheira falecida, o registro não encontrado da mãe, o filho sem os pais, os codinomes, a memória fragmentada. As ausências também exprimem a falta de ressonância da memória, espelhando o que acontece fora da ficção, no Brasil real, que viveu a ditadura civil-militar e ainda experiencia a dialética entre memória e esquecimento.
As camadas da memória fragmentada revelam as dimensões memoriais das ausências: o amor demonstrado pelo protagonista não chega ao seu filho, Fernando, que prefere não falar do pai e afirma não lembrar dele, em mais uma afetação ao telespectador, que a essa altura lembra de um dos diálogos mais importantes entre os personagens, quando Armando explica a Fernando que aqueles que morrem permanecem presentes por estarem nas lembranças, na memória.
O fechamento da obra com essa referência às relações brutalmente interrompidas pela ditadura é uma indicação clara de que “O Agente Secreto é um filme sobre memória – ou sobre a falta de memória – e sobre trauma geracional” – como disse Wagner Moura em seu discurso no Globo de Ouro 2026 –, mas também é um filme que nos lembra que cada silêncio guarda uma memória.





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