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Bienal de Veneza 2026: arte e política para além dos pavilhões nacionais


Maria Helena Japiassu Marinho de Macedo, advogada, pesquisadora em Direitos Culturais, mestra e doutoranda em Direito pela UFPR, especialista em Gestão Cultural e em Captação de Recursos pela Universidade de Boston


O ano de 2026 acolhe mais uma edição da Bienal de Veneza de Arte Contemporânea (9 de maio a 22 de novembro). Desde a sua inauguração, em 1895, a Bienal é organizada em pavilhões nacionais, em que se exibem exposições temáticas a partir de uma proposta curatorial centralizada. 


Se, no início de sua história, a Bienal de Veneza servia como espaço de compartilhamento da dimensão simbólica de acervos culturais atrelados a identidades nacionais, mais recentemente ampliou os debates para temas que ultrapassam fronteiras territoriais e colocam em questão a diversidade e a representação cultural em novas perspectivas geopolíticas.


Diferentemente de feiras de arte, a Bienal apresenta um modelo diplomático-cultural de apresentação em que os pavilhões realizam exposições oficiais. A maneira como cada país apresenta a sua proposta relaciona-se a posições políticas, as quais incluem temas comuns à ordem global.  


Em 2026, os debates mostram que a arte contemporânea não está isolada de conflitos armados, violações de direitos humanos e tensões a respeito da liberdade artística. Entre estes debates, inserem-se, por exemplo, a reflexão acerca da guerra entre Rússia e Ucrânia; guerras no Oriente Médio e o posicionamento da África do Sul quanto a questões culturais. 


A franco-camaronesa Koyo Kouoh foi convidada a liderar a proposta curatorial da Bienal de Veneza de 2026, sugerindo o título “In Minor Keys”. Muito embora tenha falecido em 2025, a organização da Bienal decidiu dar continuidade à proposta. A expressão “in Minor Keyes” pode ser traduzida para o português como “em tons menores”, fazendo alusão a uma linguagem musical, que remete a escalas mais sutis e íntimas da experiência sensível. Ao enfatizar a tonalidade menor, a curadora traz à evidência a necessidade de escuta atenta a vozes frequentemente marginalizadas por grandes narrativas políticas e culturais. 


No campo artístico, parece sugerir a abertura para autorias e linguagens periféricas, bem como o convite à introspecção, à complexidade emocional e às ambiguidades da experiência humana. Esta proposta simbólica também dialoga com contextos políticos e visa trazer à tona narrativas fragmentadas, críticas e plurais, em contraponto a discursos hegemônicos. É possível perceber, portanto, o desejo poético do ato de escutar como proposta política, elemento essencial em um mundo marcado pelo excesso de retórica. 


O modelo dos pavilhões nacionais, sobre o qual a Bienal de Veneza se estruturou, nasceu em um momento histórico no qual predominava a lógica do Estado-nação homogêneo, característica do século XIX europeu. Hoje, porém, muitas sociedades reconhecem constitucionalmente sua pluralidade interna. Países como Brasil, México, Bolívia e Equador afirmam identidades multiculturais ou plurinacionais, reconhecendo povos indígenas, comunidades tradicionais, línguas diversas e múltiplas matrizes civilizatórias. No caso brasileiro, a questão adquire densidade particular. 


A Constituição de 1988 reconhece os direitos culturais, protege o patrimônio material e imaterial e assegura os direitos originários dos povos indígenas. O país se apresenta ao mundo não como unidade simples, mas como composição complexa entre matrizes indígenas, africanas, europeias, migrantes e regionais. 


A curadoria do pavilhão do Brasil ficou a cargo de Diane Lima, que concebeu a mostra “Comigo ninguém pode”, reunindo obras de Rosana Paulino e Adriana Varejão. A proposta toma como metáfora a planta popularmente associada à proteção e à resistência para refletir sobre memória, violência histórica, ancestralidade e capacidade de reinvenção no Brasil. Ao articular diferentes linguagens e trajetórias artísticas, o pavilhão apresenta o país como espaço plural, marcado por tensões coloniais, diversidade cultural e força criativa transformadora.


Os discursos curatoriais indicam como a sociedade internacional também se tornou mais plural, afirmando-se em geografias sociais que ultrapassam fronteiras. Hoje os pavilhões nacionais não podem ser concebidos como vitrines estatais, mas percebidos como espaços de negociação simbólica sobre o que significa representar os territórios do contemporâneo. Muitos países se definem constitucionalmente como pluriculturais, plurinacionais ou multicivilizacionais, o que cria tensão entre a estrutura da Bienal e a realidade contemporânea. A Bienal se atualiza então a partir de embates que, além de geopolíticos, implicam questionamentos epistemológicos e reflexões constitucionais.


É possível perceber, no campo artístico das bienais, a força de consensos sociais tecidos em espaços para além do nacional a respeito de temas controversos que surgem no espaço global. Neste ano, a Rússia retoma o seu pavilhão da Bienal, após ter retirado sua participação em 2022, quando no início da guerra contra a Ucrânia. 


O anúncio do retorno provocou reação de autoridades europeias e críticas de artistas e do governo ucraniano, que acusou a Bienal de permitir “whitewashing” de crimes de guerra, reacendendo debates sobre os limites entre diplomacia cultural e legitimação simbólica em meio a contextos de guerra. 


Em paralelo, manifestações críticas ao pavilhão de Israel retomam discussões sobre o papel de instituições culturais diante da crise humanitária em Gaza. Por sua vez, a África do Sul tornou-se símbolo de outro dilema entre liberdade curatorial, posicionamento ético e controle estatal sobre a representação nacional, quando a artista Gabrielle Goliath teve o projeto oficial cancelado pelo governo sul-africano porque a obra homenageava vítimas em Gaza, incluindo a poeta palestina Hiba Abu Nada. Após a controvérsia que culminou em litígio judicial, o país decidiu deixar o pavilhão vazio e a obra da artista será exibida fora da programação oficial em local paralelo em Veneza.


Essas disputas não são exclusivas da Bienal. O boicote cultural ao apartheid sul-africano no século XX, as restrições esportivas impostas a Estados em conflito e os debates recentes em festivais internacionais demonstram que cultura e esporte são também arenas de questionamentos do direito internacional e da moral pública global. 


A complexidade destes cenários traz questões acerca de como representar o cenário cultural de um país em uma lógica de pavilhões estruturada em Estados-nação ou ainda sobre como apresentar narrativas dissidentes em tempos de conflito. A dificuldade das propostas narrativas dos pavilhões expõe as fraturas e as coerências internas de cada país e, talvez por isso, demonstre como a Bienal segue sendo um dos espelhos de nosso tempo. 



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