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Biblioteca como estrela da sociedade

há 17 horas
3 min de leitura
(Montagem a partir de fotos capturadas pelo articulista) 
(Montagem a partir de fotos capturadas pelo articulista) 


Humberto Cunha Filho, Professor de Direitos Culturais nos programas de graduação, mestrado e doutorado em Direito Constitucional da Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Presidente de Honra do IBDCult – Instituto Brasileiro de Direitos Culturais. Autor, dentre outros, do livro “Teoria dos Direitos Culturais: fundamentos e finalidades” (Edições SESC-SP), já em 3ª edição  


Consegui um intercâmbio como Visiting Scholar na University of New South Wales (UNSW), em Sydney – Austrália, para fazer estudos comparados sobre federalismo cultural, isto é, para investigar como nesta e na federação brasileira se repartem as competências relativamente às responsabilidades culturais dos entes políticos.  


No primeiro dia de atividades, o colega supervisor da minha estadia na UNSW, o Professor Lucas Lixinski, levou-me ao local onde mais tempo passam os pesquisadores do universo jurídico, a Law & Justice Library (biblioteca especializada em direito): um lugar encantador, que funciona 24 horas por dia, nos sete dias da semana, de acesso livre, significando que os funcionários não pedem qualquer identificação para alguém entrar e até retirar livros das prateleiras.  



Estruturalmente, a biblioteca jurídica da UNSW é dotada de vários tipos de espaços que são ofertados aos leitores: mesas redondas, cabines individuais, salas para estudos coletivos, assentos confortáveis e espaços com computadores e internet são algumas das facilidades mais visíveis.  


Situada em um prédio de quatro andares, com o acervo próximo das salas de aula de portas transparentes, dando a sensação de que as atividades acadêmicas são ministradas em um ambiente cuja percepção varia de se estar em um oceano ou em um ventre de livros. É um sentimento verdadeiramente orgânico o que percorre a relação entre seres humanos e essas milenares ferramentas do conhecimento.  


Após conhecer o ambiente, cheguei à conclusão apressada de que a estrutura acolhedora e o ambiente de liberdade e confiança seriam coisas peculiares da unidade universitária qualificada como a 13ª de maior excelência em todo o mundo, no âmbito jurídico, segundo o QS World University Rankings. Não demorou muito para eu descobrir o meu erro.  


Precisando adquirir algumas amenidades, dirigi-me ao Shopping Metro, no município metropolitano de Randwick, com o intento adicional de comprar algum livro. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que no referido centro comercial não havia livraria.  


Porém, a maior loja, superando em tamanho a magazine de roupas e até mesmo o supermercado, é uma biblioteca pública, com comodidades similares às acima relatadas para a da Universidade, apenas com a limitação de horário ao do funcionamento do shopping. Porém, para compensar, oferece um delivery gratuito do acervo (livros, revistas, CDs, DVDs etc) para quem esteja sob cuidados médicos, tenha mobilidade reduzida ou já tenha idade avançada.  


Não bastasse, na primeira folga que tive, fui conhecer o Sydney Opera House, verdadeiro ícone da cidade e, ao caminhar pelas cercanias, deparei-me com um prédio assemelhado a um palácio de governo, cuja beleza me atraiu para ver o interior, no qual há (surpresa!) uma linda, convidativa e aberta biblioteca. Não muito distante, a Biblioteca Estadual, simplesmente deslumbrante, ocupando todo um quarteirão, tanto com o acervo literário quanto com salas de exposições de artes plásticas e fotografias.  


Fiquei interessado em saber sobre eventual política cultural específica, tendo descoberto que, na Austrália, as bibliotecas públicas são em grande medida organizadas pelos governos locais, não existindo propriamente uma única rede estatal de Sydney que abranja toda a metrópole.  


Trata-se de um serviço público que entra na pauta política, tanto por demanda dos eleitores como por oferta dos que disputam os seus votos. As bibliotecas aqui descritas são contadas às dezenas na Grande Sydney, e o apego da população me induziu mentalmente a fazer uma comparação com outra viagem relativamente recente: os templos estão para a Índia como as bibliotecas estão para a Austrália.  


As analogias com o Brasil também foram inevitáveis, levando-me a pensar em iniciativas quase heroicas, algumas das quais mais pitorescas que efetivas, como a de colocar geladeiras velhas recheadas de livros em pontos de ônibus (geladeirotecas), passando pelo jegue-livro, a bici-biblioteca, o barco-biblioteca etc., chegando às políticas do livro e da leitura, que parecem persistir, se não no pensamento, na prática de que biblioteca é simplesmente um espaço onde há livro, o que evidentemente não basta: elas devem ser atrativas para as pessoas em geral, ofertar a percepção de sua importância sociocultural, com estrutura digna e acessível e, assim, possibilitar um contínuo processo de formação não apenas de leitores, mas de plenos cidadãos, como eloquentemente se evidencia ser o caso da Austrália.

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