Apelo a Baco

Atualizado: Mai 17


O Brasil é comumente lembrado no exterior pelo seu carnaval. É nesta festa popular que o brasileiro mostra toda a sua alegria, o seu gingado e a sua sensualidade. Mas, às vezes, esse modo de ser é deturpado, não de forma inocente, para associá-lo sem nenhum pudor a ideia de sexo fácil.

Não que sexo seja ruim, ou se concorde com alguma campanha de abstinência sexual. Mas a festa de Momo não é apenas sexo; propagar referida ideia deturpa esta manifestação cultural, cuja relevância é traduzida pela sabedoria popular na afirmação de que o ano no Brasil só começa após o carnaval. Tanto é verdade que nem mesmo o Novo Coronavírus conseguiu chegar (ou ser notado) em terra brasilis antes do festejo, e muito menos ocupar qualquer lugar de destaque, pois o centro das atenções era o carnaval.

Essa manifestação cultural compõe uma das identidades culturais do Brasil e consiste numa das lentes por meio da qual o mundo a enxerga e entende o seu modo de ser. É certo que este é um daqueles momentos mais eufóricos e de manifestação de liberdade e irreverência que toma conta do país. Os tabus são quebrados e as convenções sociais são momentaneamente superadas, pois faz parte da festa transgredi-las. Assim, até para os mais conservadores é permitido ao homem se vestir de mulher e à mulher se vestir de homem e não há cores definidas, todas as cores podem ser usadas e abusadas.

Mas, passado o carnaval o ano começa e as mazelas esquecidas, por obra divina ou profana, ressurgem na quarta-feira de cinzas. A realidade enfim bate a porta. E dessa vez é Pandora para entregar a sua caixa aberta e alertar que o mau ali contido já está espalhado pelo mundo. Contudo, de forma inusitada, e contrariando inclusive a lógica do capital e do consumo, a realidade impõe, por cuidado próprio e com o próximo, o dever de não fazer. Uma abstenção, portanto, simbolizada no mundo virtual com a hashtag: #ficaemcasa.

Esse comportamento imposto por uma necessidade sanitária que orienta o isolamento social afeta duramente o modo de ser do brasileiro que é expansivo, cujo diálogo não é apenas verbal, mas extremamente corporal, em que o contato físico dos interlocutores significa mais do que as palavras verbalizadas. Será que o temor do contágio pelo Novo Coronavírus irá modificar essa forma de ser? Será que o sentimento de acolhida ao próximo traduzido no ditado popular: é igual a coração de mãe, sempre cabe mais um, sofrerá apenas uma suspensão momentânea, voltando tudo ao “normal” após a pandemia?

Será que Baco, Dionísio na mitologia grega, adorado como deus do vinho no Egito e celebrado em Atenas e Roma com orgias - denominação das festas em sua homenagem - fundador da primeira escola de música e homenageado com as primeiras representações teatrais também está cumprindo isolamento social? Deve Baco se curvar as determinações das autoridades temporais que decretaram a suspensão das atividades culturais e de entretenimento para impedir a reunião de pessoas e evitar a propagação da Covid-19?

Baco pode estar se questionando: o que ele tem a ver com a rixa entre Prometeu e Zeus. Pois não foi ele quem roubou o fogo para dar aos humanos, e nem ele quem deu à Pandora uma caixa contendo os males que afligem a humanidade. Por isso, Baco e seu séquito não devem estar satisfeitos com a paralização dos cultos em sua homenagem.

O momento é de recolhimento e uso da tecnologia para afastar a solidão. Mas, fica o apelo a Baco: troca uma ideia com Epimeteu, irmão de Prometeu, e pede a ele para espalhar pelo mundo a esperança que ficou retida na Caixa de Pandora, para auxiliar na travessia desse momento.



12 de abril de 2020


Allan Carlos Moreira Magalhães é Doutor em Direito,

professor e pesquisador com estudos no campo dos Direitos Culturais

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2014 Instituto Brasileiro de Direitos Culturais

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