Mulheres do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)

Atualizado: Set 30


Igreja Matriz de Santo Antônio (Yussef Campos, 2014). O conjunto arquitetônico e urbanístico de Tiradentes foi tombado pelo IPHAN em 1938. Foto do autor.


Segundo o dicionário Michaelis (1) , o significado de patrimônio é "(pa·tri·mô·ni·o – sm) 1 Herança paterna; 2 Bens de família". Pater, pai. Sim. O patriarcado está presente na nossa linguagem. Se são os indivíduos que falam, se expressam, escrevem; e se o pater é historicamente estrutural, ele também está no patrimônio cultural, pois são os grupos sociais que atribuem valores ao que se torna patrimônio. Haveria um matrimônio cultural? Não, ao menos institucional e juridicamente.


Muitos homens foram responsáveis, meritoriamente, por nos legar o que hoje chamamos de patrimônio cultural e Instituto do Patrimônio. Os modernistas, os burocratas do Estado, os pensadores da academia. Lá estavam eles, direta ou indiretamente, inventando nosso patrimônio histórico e artístico, na década de 1930: Rodrigo Melo Franco de Andrade, Mário de Andrade, Lúcio Costa, Afonso Arinos de Melo Franco, Gilberto Freyre, Carlos Drummond de Andrade, Gustavo Capanema (ministro de Vargas), Luís Saia, Paulo Tedim, J. Sousa Reis, Alcides Miranda, Edgar Jacinto, Sérgio Buarque de Hollanda, Alceu Amoroso Lima, Manuel Bandeira, dentre muitos.


Também havia mulheres. Ainda que silenciadas por parte massiva da historiografia que se debruça sobre o tema, elas tiveram e têm atuação indispensável na constante construção da memória coletiva em nosso país. Muito sumariamente, relatarei um pouco sobre algumas delas. A começar por Judith Martins. Ela "começou a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em abril de 1936, tornando-se uma das secretárias de Rodrigo Melo Franco de Andrade, o primeiro dirigente da Instituição. Estimulada por Rodrigo, Judith começou a pesquisar a bibliografia sobre Aleijadinho, estudo que resultou no artigo 'Apontamentos para a bibliografia referente a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho', publicado no 3º número da Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1939, e republicado, em 1950, no número 6 da Revista do Centro de Estudos Folclóricos da Faculdade de Urbanismo da Universidade de São Paulo" (2)


Já Hélcia Dias, que atuou como datilógrafa, bibliotecária e perita em belas-artes, publicou trabalhos e artigos técnicos, como "O imobiliário dos Inconfidentes", na edição nº3 da Revista do Patrimônio, de 1939; Heloísa Alberto Torres foi diretora do Museu Nacional e única mulher no Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas no Brasil, de 1934 a 1939, e autora de artigo publicado na primeira revista do Patrimônio (1937); Lygia Martins Costa, primeira museóloga do Iphan, foi autora de textos de referência sobre Aleijadinho, Artes, Patrimônio, Museologia e Museus Regionais; Hanna Levy, alemã e historiadora da arte, atuou no Instituto nos anos 1930 e 1940.


Contudo, pouco ou nada se vê nos topônimos e/ou outras formas de homenagem feitas pela própria Instituição quanto aos nomes femininos. Concurso Sílvio Romero, Edifício (Palácio) Gustavo Capanema, Centro Lúcio Costa (situado à Avenida Getúlio Vargas), Sítio Roberto Burle Marx, Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, Biblioteca Aloísio Magalhães, Arquivo Noronha Santos, Prêmio Luiz Castro de Faria, Museu do Folclore Edison Carneiro, Biblioteca Amadeu Amaral, Prêmio Manuel Diéguez Jr. Incontestáveis honrarias a quem muito se dedicou ao conjunto de ações, em décadas de trabalho, ao IPHAN. Todos homens.


Mas fico aqui, contemplando a tela do computador em meu escritório, fugindo do anacronismo, encarcerado pela pandemia, procurando os prêmios, bibliotecas, edifícios, concursos Judith Martins, Hélcia Dias, Heloísa Alberto Torres, Lygia Martins Costa, Hanna Levy, Nair Batista, Lia Motta, Márcia Chuva, Cecília Londres Fonseca, Jurema Machado, Cláudia Baeta Leal, Célia Corsino, Salma Saddi......


Yussef D. S. Campos

Professor da Faculdade de História e dos Programas de Pós-Graduação em História e Professor de História, da UFG. Autor de "Palanque e Patíbulo: o patrimônio cultural na Assembleia Nacional Constituinte (1987-1988)". 2ª ed. Goiânia: Palavrear, 2019.


(1) Disponível em: http://michaelis.uol.com.br/busca?id=3wPaw. Acesso em 25 de setembro de 2020.


(2) THOMPSON, A. A História Oral no IPHAN. IN: Entrevista com Judith Martins/[org. Analucia Thompson]. – Rio de Janeiro: IPHAN/DAF/Copedoc, 2009. p.22.

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