A invisibilidade das mulheres na História



Março é bastante propício para que façamos uma análise crítica do papel da mulher na história, uma vez que esse mês do calendário é dedicado, em grande parte, a se prestar homenagens ao sexo feminino. Em 1975, a Organização das Nações Unidas reconheceu o 8 de março como Dia Internacional da Mulher. A escolha desse dia tem sido bastante questionada, uma vez que há várias versões sobre a origem histórica dessa data. O que aconteceu de tão relevante na História da Humanidade para uma data ser consagrada mundialmente como o “Dia da Mulher”? O que houve de tão importante nesta data para até hoje ser relembrada como um marco histórico e comemorada em mais de cem países? Por que o dia 8 de março?


Em 1857, neste dia, um grupo de operárias da indústria têxtil Cotton, de Nova York, realizou uma grande manifestação em que reivindicavam melhores condições de trabalho, tais como jornada de trabalho de 10 horas, melhoria de salários, direito à licença maternidade, entre outros direitos sociais. Os policiais reprimiram duramente essa manifestação, ateando fogo na fábrica, o que provocou a morte de 129 operárias. Essa tem sido a versão mais usada para justificar a escolha da data de 8 de março como Dia Internacional da Mulher. Há uma outra versão que atribui à revolucionária comunista alemã Clara Zetkin a definição deste dia. Por ocasião do II Congresso Internacional das Mulheres Socialistas, ocorrido na Dinamarca, em 1910, Clara propôs o dia 8 de março em memória das operárias queimadas em 1857. Outros afirmam que ela apenas propôs a instituição de um Dia da Mulher, sem definir uma data específica.


Apesar de História ser um vocábulo feminino, sua escrita e narrativa, expressas na produção historiográfica, reservam pouco espaço para a atuação das mulheres. Durante muito tempo, a história oficial, consagrada nos livros e reproduzida em sala de aula, deu prioridade ao espaço público onde figuravam os heróis nacionais, quase que exclusivamente homens, na sua maioria brancos e ligados aos setores dominantes da sociedade. Como a esfera pública, durante muito tempo, foi um espaço negado às mulheres, elas foram alijadas, silenciadas e até mesmo omitidas pela historiografia tradicional. Essa invisibilidade na História deve-se também ao fato de que a História das mulheres não foi por elas escrita. A filósofa e feminista Simone de Beauvoir, na sua obra clássica O Segundo Sexo, já afirmava que “toda a História das mulheres foi escrita pelos homens”.


A ideia de direitos às mulheres surgiu na segunda metade do século XVIII, em meio às revoluções burguesas, sobretudo na França revolucionária, que colocou na pauta a necessidade de se garantir os direitos do homem frente ao poder absolutista do estado. No entanto, embora as mulheres tivessem participado de atos que ajudaram a derrubar o Antigo Regime francês, elas não foram contempladas no documento final conhecido como “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” (1792).


Assim, durante a Revolução Francesa (1789-1793), Marie Gouze, propôs um novo documento à Assembleia Nacional da França. Era a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã (1791). Olympe de Gouges, nome por ela adotado para assinar seus panfletos e petições em várias frentes de luta, incluindo a abolição da escravidão, era filha de um açougueiro do sul da França. Por ser girondina, ela se opôs abertamente ao líder Robespierre e não teve um final feliz: foi condenada como contra-revolucionária, denunciada como uma mulher "desnaturada" e guilhotinada em 1793.


Na produção historiográfica, quase não há lugar para as mulheres, negros, índios, trabalhadores, homossexuais e outras minorias sociais- os chamados “excluídos da história”, expressão cunhada pela historiadora francesa Michelle Perrot. Essa mesma historiadora expressa, de forma contundente, que a narrativa tradicional reservou pouco espaço para as mulheres, na medida em que privilegiou a cena pública, o mundo da política e da guerra.


No Brasil, predominou, durante muito tempo, uma narrativa assexuada, onde as questões de gênero só muito recentemente passaram a fazer parte do território epistemológico dos historiadores e cientistas sociais. Com a renovação do conhecimento histórico nas últimas décadas do século XX, ligada à tradição da Nouvelle Histoire, novos temas relacionados ao cotidiano, às mentalidades coletivas e a aspectos da vida privada possibilitaram a emergência das mulheres como sujeitos históricos.


Na verdade, como o mundo feminino esteve sempre associado ao “sexo frágil”, a história oficial omitiu, muitas vezes, as mulheres que participaram em guerras, revoltas e conflitos armados. No entanto, as mulheres pegaram em armas e lutaram em momentos cruciais da história do País. Um exemplo clássico da participação das mulheres em conflitos armados se deu durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945). Como sabemos, o Brasil participou desse conflito ao lado dos países aliados. A história oficial destaca apenas o papel heroico dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Esquece-se que 67 mulheres viajaram como enfermeiras para os campos de batalha na Itália, auxiliando no tratamento de doentes e feridos, em Nápoles.


Até mesmo em nível institucional, o Poder Público, por intermédio de iniciativas legislativas, reconhece apenas sete personagens femininos como “Heroínas” com o devido registro no livro de aço, depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. Até a presente data, são consideradas “Heroínas da Pátria” as seguintes personagens: Anna Nery; Anita Garibaldi; Bárbara de Alencar; Clara Camarão; Jovita Feitosa; Zuleika Angel Jones; Maria Quitéria; Joana Angélica de Jesus; Maria Felipa de Oliveira; Dandara de Palmares e Luíza Mahin. São apenas 11 mulheres, representando apenas 15% do total de nomes inscritos.


Um outro aspecto da História Oficial refere-se à ideia de que o direito de voto foi mera concessão do governo Vargas, quando, em 1932, foi promulgado o Código Eleitoral que, entre outras inovações, trazia essa garantia às mulheres. Omite-se que, desde a década de 1910, muitas brasileiras lutaram por seus direitos de cidadania, por sua emancipação e, a duras penas, conseguiram ocupar, paulatinamente, vários espaços da sociedade. Neste sentido, merece registro a atuação das sufragistas, que lutaram pela conquista do voto, ousaram se candidatar e ocuparam cargos no poder público, abrindo novos caminhos para as mulheres brasileiras. Nomes como Leolinda de Figueiredo Daltro, fundadora do Partido Republicano Feminino; Bertha Lutz, militante feminista; Celina Guimarães Viana, primeira eleitora; Carlota Pereira de Queirós, primeira deputada federal e Alzira Soriano de Souza, primeira prefeita eleita do país, entre tantas outras, merecem também ter seus nomes inscritos no Panteão da Pátria.


Mais uma vez, a letra do samba-enredo da Mangueira nos mostra o quanto é importante dar voz a tantas mulheres que foram silenciadas: Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”.

Ricardo Oriá

Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo e pós-doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Consultor Legislativo da área de educação, cultura e desporto da Câmara dos Deputados. Articulista do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais (IBDCult). É autor de artigos sobre patrimônio cultural e museus e do livro O Brasil contado às crianças: Viriato Corrêa e a literatura escolar brasileira (E. Annablume, 2011).

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