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Do espetáculo ao equilíbrio: Anitta, direitos culturais e as contradições do entretenimento contemporâneo

18 de ago.
5 min de leitura

Atualizado: 31 de ago.




Maria Helena Japiassu, Advogada, pesquisadora em Direitos Culturais, mestra e doutoranda em Direito pela UFPR, especialista em Gestão Cultural e em Captação de Recursos pela Universidade de Boston, associada do Instituto Brasileiro de Direitos Autorais (IODA), membro associada do IBDCult. Foi coordenadora do GT Artes da Comissão de Assuntos Culturais da OAB-PR entre 2022 e 2024 e visiting researcher junto à Cátedra Unesco de Bens Culturais e Direito Comparado na Unitelma Sapienza


Durante mais de uma década, Anitta vendeu movimento. Movimento do corpo, da carreira, do mercado. A cantora conquistou o Brasil, a América Latina, o mercado norte-americano, os rankings mundiais, as redes sociais e os algoritmos. Poucos artistas brasileiros compreenderam tão profundamente as regras da economia da atenção quanto Larissa de Macedo Machado. Cantora, empresária, estrategista e gestora da própria marca, ela transformou a si mesma em um dos maiores produtos culturais de exportação do país. É justamente por isso que o ambicioso álbum “Equilibrium”, seu mais recente projeto lançado em duas partes em 2026, desperta interesse para além da música. Afinal, após tantas conquistas, o que significa buscar equilíbrio e o que isso tem a ver com os direitos culturais?


A história de Anitta começa longe das grandes gravadoras. Criada em Honório Gurgel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, cantou ainda criança em um coral de igreja e encontrou no funk carioca sua primeira linguagem artística. A presença nas paradas de sucesso repercutiu também na ascensão social. Seu sucesso não pode ser explicado apenas pelo talento; resulta de uma rara combinação entre visão empresarial, domínio das plataformas digitais e capacidade de transformar referências populares em produtos de alcance internacional.


A trajetória de sucesso é também polêmica. A primeira década da carreira de Anitta foi marcada por uma tensão permanente entre reconhecimento artístico e controvérsia. Sua imagem pública foi amplamente associada à sensualidade, à ostentação e ao consumo, especialmente a partir de canções como Show das Poderosas, Bang, Vai Malandra e Envolver.


Estas características alimentam o contraste entre aqueles que entendem o seu trabalho como reprodutor de expectativas objetificadas sobre o corpo e a aparência feminina e aqueles que compreendem a autonomia de Anitta como um ato de empoderamento feminino. Para esta última corrente, a cantora representa a mulher que controla a própria narrativa, monetiza sua imagem e rompe com um mercado historicamente dominado por homens.


Em artigo anterior sobre o direito à informação e a cultura do tempo perdido, sustentei que a sociedade contemporânea é marcada pela aceleração permanente, pela hiperconectividade e pela transformação do tempo em ativo econômico, fenômenos que Byung-Chul Han reúne sob a noção de sociedade do desempenho. Em A Sociedade do Cansaço, o filósofo demonstra como o capitalismo contemporâneo desloca a exploração para o próprio indivíduo, que passa a administrar a si mesmo em busca de produtividade, visibilidade e sucesso. Poucas artistas brasileiras ilustram tão bem essa lógica quanto Anitta. Sua carreira foi construída sobre reinvenção permanente, expansão internacional e uma notável capacidade de transformar cada conquista em impulso para a seguinte.


Essa reflexão dialoga com outro argumento que desenvolvi ao analisar a cultura da brandização pessoal a partir do caso Neymar Jr.: na economia digital, pessoas tornam-se marcas, e tempo, imagem e identidade convertem-se em ativos econômicos. Anitta talvez seja uma das expressões mais bem-sucedidas desse novo capitalismo cultural: cantora, empresária e marca global. É justamente por isso que Equilibrium desperta interesse. Sem abandonar o empreendedorismo que a projetou internacionalmente, o álbum desloca sua narrativa para valores como ancestralidade, espiritualidade, diversidade cultural, pertencimento e patrimônio cultural brasileiro. Mais do que uma mudança estética, esse movimento sugere que uma marca construída sob a lógica da performance pode também colocar seu capital simbólico a serviço do reconhecimento da diversidade cultural e da valorização da cultura brasileira.


No álbum Equilibrium, a cantora segue o seu percurso de sucesso, mas vai além do seu estereótipo, ampliando o seu repertório simbólico. Em um primeiro momento, o álbum surpreende pelo retorno da cantora às referências musicais brasileiras. Entram em cena a alusão à espiritualidade, à ancestralidade, às religiões de matriz africana, à natureza, à bossa nova, ao samba, ao reggae, ao funk carioca, à música popular brasileira e a artistas de diferentes gerações. Canções como “Mandinga”, “Nanã”, “Caminhador”, “Ouro” e “Varias Quejas” revelam o interesse da artista em dialogar com o patrimônio cultural brasileiro.  

A sua identidade antropofágica, que antes bebia das culturas hispano-americana e pop norte-americana, retorna agora mais rica e plena de brasilidade ao mainstream da indústria musical.


Essa mudança merece atenção porque coincide com a valorização da dimensão imaterial do patrimônio cultural brasileiro, levando ao palco a riqueza das múltiplas identidades que compõem a diversidade cultural do país. Ao levar esses elementos para o centro de um projeto pop de alcance internacional, Anitta contribui para ampliar a visibilidade e o reconhecimento dos grupos formadores do país, objetivo também valorizado pela Constituição Federal brasileira de 1988, em seu artigo 216. Para além dos interesses particulares da cantora, pode-se dizer que a sua popularidade e os mecanismos do mercado que a absorvem servem para promover a dimensão da diversidade cultural e colocar em circulação outras narrativas sobre o Brasil.


Neste ponto, é possível ver convergências de intenções entre o álbum Equilíbrio e os direitos culturais. A Constituição brasileira e a Convenção da UNESCO sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais lembram que cultura não é apenas entretenimento ou mercadoria, mas também produz pertencimento, identidade e reconhecimento. Nesse sentido, artistas privados podem desempenhar um papel relevante na promoção da diversidade cultural, sendo agentes que também participam da construção do espaço público. Esta reflexão, no entanto, não é livre de ambiguidades. Equilibrium permanece como produto da indústria cultural e, por essa razão, a defesa dos direitos humanos, da sustentabilidade, da espiritualidade e da diversidade cultural não deixa de ser um produto absorvido por interesses de mercado.


Para além do reencontro da artista com o patrimônio cultural brasileiro, Equilíbrio  traz também uma nova força simbólica e uma dimensão crítica em relação à sociedade do desempenho. Aqui vem o ponto de virada da obra da cantora. Anitta parece frear-se em um momento reflexivo e de defesa de territórios simbólicos, identidade, pausa, espiritualidade, ancestralidade, pertencimento, natureza e tempo interior. Não se trata de abandonar o trabalho ou o mercado, mas de questionar um modelo de sucesso que exige disponibilidade permanente e transforma o próprio sujeito em empresa. Para além de significar moderação, o álbum explicita mensagens de resistência à lógica da produtividade infinita.


É justamente por isso que Equilibrium parece representar um deslocamento simbólico tão significativo. O eixo da obra parece mover-se da ostentação e da performance permanente para a busca de equilíbrio, não como rejeição do empreendedorismo ou do mercado, mas como tentativa de lhes atribuir novos sentidos. Se antes a marca "Anitta" era percebida sobretudo como expressão de sucesso, visibilidade e expansão, em Equilibrium ela passa a funcionar também como veículo de valorização do patrimônio cultural brasileiro e de promoção da diversidade cultural. Permanecem, evidentemente, as contradições de uma indústria que continua transformando artistas em marcas e a cultura em mercadoria. Ainda assim, o álbum convida a refletir se o enorme capital simbólico acumulado por uma artista global pode também ser colocado a serviço do reconhecimento cultural, dos direitos humanos e da construção de um entretenimento mais consciente de sua responsabilidade social.


Talvez a maior contribuição de Equilibrium não esteja em oferecer respostas, mas em deslocar perguntas. A trajetória de Anitta revela as ambiguidades de uma indústria cultural que transforma artistas em marcas, identidades em ativos econômicos e visibilidade em capital, sem que isso elimine sua capacidade de produzir cultura, reconhecimento e novos imaginários sociais. Ao reposicionar sua narrativa em torno da ancestralidade, da diversidade cultural, da espiritualidade e do patrimônio brasileiro, a artista não abandona o mercado nem renega o empreendedorismo que marcou sua carreira; propõe, antes, uma reflexão sobre os valores que orientam o sucesso na sociedade contemporânea. Em um tempo marcado pela aceleração, pela superexposição e pela monetização da própria identidade, Equilibrium sugere que o verdadeiro equilíbrio talvez não consista em escolher entre mercado e cultura, mas em compreender que a liberdade artística também pode servir à valorização da diversidade cultural, dos direitos humanos e da construção de um entretenimento mais consciente de sua responsabilidade social.


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