Distanciamento político antes do social


Yussef Campos, Montevidéu, 2009


Aprendi com meu pai que, às vezes, para mantermos o amor, temos que manter a distância. Esse ensinamento me foi passado não agora, em meio à pandemia, embora a ela seja plenamente aplicável, mas após o Golpe de 2016 e, principalmente, posteriormente às eleições de 2018.


Assim, pergunto: há equívoco no comportamento de alguns, como eu, ao se afastarem de amigos e familiares que defenderam/defendem o governo autoritário e os atos antidemocráticos em nosso País? Segundo a lição paterna, não! Desde que se mantenha o amor. Não são fáceis de serem cultivados o afastamento e o amor. Sim, isso é paradoxal e real. Vejamos.

Sempre nutri amizades com os que divergiam, o que é plenamente saudável e passível de nos fazer amadurecer e evoluir. O fato de eu ter estudado em escola particular e católica e ter cursado Direito em uma universidade pública (a primeira formação me capacitou, pelo acesso ao ensino de qualidade, à segunda), me colocou em contato permanente com colegas conservadores, cristãos, brancos, heterossexuais, em sua maioria. Meu posicionamento, sempre à esquerda, nunca foi causa de dissenções mais profundas, ao menos entre os mais próximos.


Todavia, a divergência que já foi salutar transformou-se em oposição e adversidade, frutos da polarização tão intensa, renascida em meados da década passada. Não se trata, logo, só de política partidária.


Como conceber que pessoas com as quais convivi por tanto tempo (algumas por cerca de três décadas) sejam defensores de valores vis como misoginia, transfobia, LGBTQI+fobia, racismo? Defendem a ditadura militar de 64, a tortura, a manutenção do abismo social? [Para eles são os meus valores, contrários a todos esses, os vis. Portanto, o afastamento é recíproco e legítimo].


A verdade, creio, é que as estimas à não inclusão do outro sempre estiveram presentes. Mas o ambiente plenamente democrático é constrangedor às práticas como essas. O ataque frontal à Democracia e suas consequências políticas abriram a porta do armário da hipocrisia, que mantinha o autoritarismo, talvez atávico, escondido no contubérnio de seus lares.


E não vale dizer que o voto não foi no candidato que acabou eleito, mas contra seu adversário. Esse eufemismo é a tentativa de manter, no máximo, aquela porta entreaberta. Há, na realidade, identificação com alguma agenda autoritária do plano de desgoverno que se tornou vencedor.


Essa carta aberta, gestada durante muita reflexão e exercícios de tentativa de autoconhecimento, é uma acareação com o estorvo que me assombra.

Sigamos respeitando o afastamento.


Como me ensinou minha mãe, imperioso é nunca adiar um carinho. E, assim, aos personagens desse distanciamento, envio ósculos e amplexos.


De longe, pois é preciso manter a distância.

Yussef Daibert Salomão de Campos

Professor da Universidade Federal de Goiás e do Programa de Pós-graduação em História e do ProfHistória – UFG. Autor de "Palanque e Patíbulo: o Patrimônio Cultural na Assembleia Nacional Constituinte. Articulista do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais (IBDCult)

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