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Culturas milenares à beira do abismo


*Imagem: TeeFarm; CC BY.


“Salvem mil anos da arte de vidro”! Esse é o apelo feito recentemente por alguns maestros da cultura tradicional de produção de vidro artístico soffiato (1) da ilha de Murano (2) , situada na região de Veneza.


Para tais profissionais, melhor seria fechar a bottega (3) histórica da família que continuar a manter o forno aceso sem nenhum pedido de compra ou turista para adquirir sua arte milenar de modelar o vidro incandescente. Essa arte, com significativas influências árabes e asiáticas, tem seus primeiros registros de existência datados a partir do ano de 982 D.C. (4) e transformou nos últimos séculos essa pequena ilha veneziana no centro mundial de artesanato e arte tradicional, dando origem à vidraria e ao design mundial contemporâneo.


É compreensível a preocupação dos bottegai, uma vez que até metade de agosto, época de maior faturamento do ano, alguns ainda não haviam vendido nenhuma peça e outros nem sequer aberto as portas. Os mais resistentes decidiram continuar com as bottegas abertas simplesmente para manter o forno aceso, tendo em vista que se ele apagasse demoraria cerca de 15 dias para voltar a queimar normalmente peças a 1500 graus.


Contudo, o colapso da ilha de Murano teve início há alguns anos, sendo que atualmente não

restam mais do que 600 fábricas (150 oficiais) das mais de 6 mil existentes nos anos 80, as quais alimentavam, à época, quase 10 mil famílias da região (5).


Inicialmente, sofreram com a globalização econômica que facilitou o comércio de peças falsificadas e a concorrência de baixo custo, obrigando o encerramento de quase 1500 fábricas nos anos 90. Calcula-se que, atualmente, cerca de 75% das peças disponíveis no mercado como made in Murano são falsas (6). Como se não bastasse esse fator de mercado, a região vem sofrendo os efeitos das mudanças climáticas nos últimos anos. As elevações das marés responsáveis pelas graves e cada vez mais frequentes enchentes provocaram impactos que paralisaram Veneza e todas as ilhas ao redor, gerando um cenário apocalíptico. O mar chegou a níveis (187 centímetros) que não eram vistos desde novembro de 1966, cobrindo mais de 80% da superfície habitável da região, fechando escolas, museus e fábricas e causando um prejuízo de centenas de milhões de euros (7) .


Ainda mais recentemente, com a pandemia do Covid-19, as atividades econômicas e culturais de Murano foram estacionadas por meses, criando-se o receio de que tal doença pudesse provocar um golpe fatal na produção daquele patrimônio cultural imaterial milenar e único. Visando evitar o infortúnio, foi editada a lei Rilancio (8) , que prevê a distribuição de 55 bilhões de euros para reerguer o país após a epidemia, dos quais 5 bilhões estão orçados para o turismo e a cultura, de modo que os borgos históricos mais atingidos possam sobreviver.


No entanto, segundo algumas associações artísticas locais, essas medidas emergenciais não serão suficientes. De acordo com elas, seria necessário e imprescindível que houvesse também um plano de salvaguarda específico com ações e medidas de longo prazo que permitissem defender a ilha de Murano do turismo de massa e low cost viciados em souvenir industrial.


O primeiro passo para evitar a extinção desse patrimônio, segundo clamam essas associações, seria o reconhecimento pela Unesco do seu valor cultural universal, inserindo-o na Lista Representativa de Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco, nos termos da Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, adotada em Paris em 17 de outubro de 2003.


A boa notícia é que, após seis anos de tramitação burocrática referente à tal candidatura, a

Unesco finalmente aprovou o dossiê elaborado pela Itália e pela França para a “arte da pérola do vidro de Venezia” (9) . A decisão final provavelmente será tomada no próximo encontro do Comitê de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, em sua décima quinta sessão, programada para novembro / dezembro de 2020.


Realmente, pensar na cultura tradicional como centro da riqueza histórica de uma comunidade, visando a valorização e a consolidação da identidade única de um determinado território é imperioso, especialmente nessa nova fase pós-pandemia que estamos vivendo. No caso específico da ilha de Murano, pode ser uma excelente oportunidade para refletir sobre novas ideias e inovações, bem como para estimular os moradores a redescobrir e a investir em abordagens diferenciadas que envolvam as dimensões sociais e ambientais para um turismo mais sustentável, a fim de equilibrar as necessidades e interesses dos habitantes locais e as de

seus visitantes.


Anita Mattes

Advogada na área de Direito Internacional e Patrimônio Cultural, a autora é cultore della materia na Università degli Studi di Milano-Bicocca, doutora  pela Université Paris-Sanclay, mestre pela Université Panthén-Sorbone e Conselheira do IBDCult



1 Soffiare (soprar) o vidro é a técnica usada em Murano permitindo ao vidreiro moldá-lo para criar obras únicas e inimitáveis.

2 VISETTI, G. Il virus chiude Murano: salvate mille anni di arte del vetro. Jornal La Reppublica, 12 agosto de 2020, p. 21.

3 Pequeno comércio artesanal.

4 PANINI, A. L’Avventura del vetro: un millennio di arte veneziana. Milan: Skira, La collezione Panini, 2010; e TOSI, A. La memoria del vetro. Murano e l’arte vetraria nella storia dei suoi maestri. Venise: Marsilio, 2006

5 Dados disponíveis em: VISETTI, G. Il virus chiude Murano: salvate mille anni di arte del vetro. Jornal La Reppublica, 12 agosto de 2020, p. 21; Confartigianato Venezia, site: artigianivenezia.it; e Prefeitura de Venezia, site: achive.comune.venezia.it. Todos, acesso Agosto, 2020.

6 Ibidem.

7 Ecco Venezia ferita: il rapporto dei dani. Jornal La Voce di Venezia, 19 de novembro de 2019. Disponível no site: lavocedivenezia.it. Acesso Agosto, 2020.

8 Lei Relançar n. 77 de 17 de Julho de 2029. Lei sancionada a partir do decreto-lei n. 34 de 19 de maio de 2020, referente a “misure urgenti in materia di salute, sostegno al lavoro e all’economia, nonché di politiche sociali connesse all´ emergenza epidemiologica da COVID-19” (medidas urgentes de saúde, apoio ao trabalho e economia, bem como políticas sociais relacionadas à emergência epidemiológica da COVID-19).

9 Dossiê n. 1591. Documento disponível no site da Unesco: ich.unesco.org. Acesso Agosto, 2020.

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