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As revelações da seca extrema


Passagem das Pedras, no Monumento Natural Vale dos Dinossauros, em Sousa, na Paraíba, mostra pegadas de um Iguanodante Mantelli, dinossauro semibipede e herbívoro de três toneladas que viveu há 80 milhões de anos. Foto da autora (2023)

Há semanas recebo fotografias tiradas da janela de um apartamento em Manaus e em todas elas parece cair uma chuva forte sobre a cidade. “É fumaça, a cidade tá toda cheia de fumaça”, respondeu minha remetente quando o grave quadro da seca no Amazonas, a maior em mais de um século, ainda não havia se tornado notícia nacional. Os relatos vinham acompanhados da surpresa por localidades próximas começarem a ficar inacessíveis, já que os níveis dos rios estavam baixando e a maioria dos trajetos para esses lugares são realizados em barcos.

Dias depois começaram a surgir as primeiras notícias nos meios de maior abrangência, incluindo o assunto do momento, as pedras Ühtã Hori (expressão na língua Tukano para gravuras rupestres), que não apareciam desde a seca de 2010, e outros rastros arqueológicos anteriormente submersos. São gravuras rupestres com datação entre mil e dois mil anos em Manaus e em Urucará, urnas funerárias cerâmicas no sítio Costa do Goiabeira, em Anamã, e uma construção do século XVIII conhecida apenas por registros históricos, o Forte São Francisco Xavier, em Tabatinga. Esses vestígios ficaram visíveis após a redução do nível das águas dos Rios Negro, Solimões e Amazonas.

As mudanças climáticas extremas resultantes do aquecimento global têm mostrado diversos vestígios de nossa ocupação no planeta e até anteriores à humanidade. Em 2022 foram diversas ocorrências, e estes são apenas alguns exemplos: pegadas de dinossauros de aproximadamente 113 milhões de anos no Dinosaur Valley State Park, no Texas, voltaram a ficar visíveis, o que não acontecia desde o ano 2000; uma cidade do Império Mitani, de meados de 1.800 a.C., na Idade do Bronze, apareceu no Iraque após o baixo nível das águas do Rio Tigre; as pedras da fome, gravadas para indicar os níveis de água em diversos lugares do continente europeu, voltaram a aparecer no Rio Elba, na República Tcheca, mostrando registros como o que diz “se você me vir, chore”, de 1616.

Essas descobertas arqueológicas e paleontológicas tanto despertam o interesse do público como movem instituições e pesquisadores à análise dos vestígios. Em Manaus, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN já mobilizou recursos e pessoal especializado para o estudo e registro dos locais de interesse. Afinal, não é sempre que esses lugares estão à disposição dos pesquisadores, e quanto mais conhecermos sobre o planeta em que vivemos e sobre o nosso passado comum, melhor.

Acontece que a mobilização desses recursos costuma ser pontual. Mesmo que esses locais fossem acessíveis por boa parte do ano, o interesse dispensado provavelmente seria reduzido a quase zero em questão de semanas, além de os recursos serem limitadíssimos, como ocorre em outros sítios arqueológicos e paleontológicos brasileiros. Se não houver uma comunidade no entorno disposta a resguardar esses bens, é bem provável que ninguém o faça ou que os recursos para proteção e difusão sejam escassos.

Sítios que deveriam despertar o interesse de diversos públicos acabam recebendo mais visitantes estrangeiros que brasileiros, mesmo com o baixo investimento em preservação e estrutura. Há menos de um mês estive nos sítios Lajedo de Soledade, na Chapada do Apodi, no Rio Grande do Norte, e Vale dos Dinossauros [1], localizado na Bacia do Rio do Peixe – em Sousa, na Paraíba –, cujo único indício de que em algum lugar há água é a existência de juazeiros, árvores frondosas da Caatinga que mantém suas folhas verdes por suas raízes alcançarem o lençol freático.

Esses sítios têm em comum serem objetos de pesquisas internacionais e a localização no sertão nordestino em lugares onde a água deveria aparecer pelo menos em períodos específicos do ano, além da precariedade, desde a estrutura dos atrativos e dos museus recém reformados e seus condutores até a preservação dos vestígios arqueológicos e paleontológicos propriamente ditos.

Mesmo a Serra da Capivara, que abriga a maior concentração de pinturas rupestres do mundo, detém o título de Parque Nacional protegido pelo IPHAN e consta na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, dependeu de dedicação e luta de forma integral. Não fosse a arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon, que dedicou 50 anos de sua vida à defesa da região, estabeleceu convênios nacionais e internacionais e integrou a comunidade nas ações de salvaguarda, difusão e turismo, é provável que o parque piauiense estivesse em condições similares ao Lajedo de Soledade, ao Vale dos Dinossauros ou a tantos outros sítios que enfrentam as intempéries da falta de interesse e dos poucos aportes financeiros.

As muitas manchetes dos últimos dias, estampadas com frases iniciadas com “seca extrema revela” mostram o poder humano de destruição da natureza. A seca no sertão nordestino traz à tona o desconhecimento e o desinteresse por nosso próprio patrimônio arqueológico e paleontológico. Quantos sítios veremos (ou nem perceberemos) serem quase esquecidos mesmo quando são referências de estudos internacionais?

*Cibele Alexandre, Escritora, Pesquisadora, Mestre e Doutoranda em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza, Sócia-fundadora do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais – IBDCult

Nota


[1] Sousa, na Paraíba, abriga descobertas científicas referentes a diversas pesquisas no mundo inteiro. Lá está o maior conjunto de pegadas de dinossauros da fase inicial do período Cretáceo na América Latina, em uma área de quase 2 mil km², abrangendo cerca de 30 localidades no alto sertão da Paraíba. Os registros mais importantes estão em Sousa, na Bacia do Rio do Peixe. As trilhas da Passagem das Pedras são as primeiras que indicam a existência de dinossauros brasileiros. Existem rastros e trilhas fossilizadas de mais de 80 espécies em cerca de 20 níveis estratigráficos, cujo tamanho varia de 5 cm (de um dinossauro do tamanho de uma galinha), até 40 cm, como as pegadas de iguanodonte (de 4 toneladas, 5 metros de comprimento e 3 metros de altura). A maioria das pegadas são de dinossauros carnívoros. Uma das trilhas, com 43 metros em linha reta, é a mais longa que se conhece. Os rastros têm pelo menos 143 milhões de anos

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